sábado, 20 de janeiro de 2018

Dolores

Tropeço em mortos todos os dias.
Eles estão sobre os dois pés,
com as veias vazias.
Cheiram mal, estão gelados
e não lembram quem são.
E talvez falem murmúrios surdos
que ninguém irá prestar atenção.

Eu falo diariamente com os sem-vida.
Eu própria sou uma sem-ar!
E ainda assim inquilina
deste mundo que vai despedaçando
todo corpo que dá para matar.

Os media insistem no fim,
na tragédia, no drama.
Eu não vou ver assim,
ela está longe de se apagar.
Meio mundo a ama,
outra metade também lembrou-se de a amar.

Mas porquê uma despedida?
O que é estar morto?
O que é não ter vida?

Nada mudou,
apesar dos erros
existem pessoas imortalizáveis.
Mais importantes que alguns meus
e que são à morte adaptáveis.

Jamais haverá um enterro,
jamais será um adeus.


"I see the glory in your eyes"


1 comentário:

  1. "O que é estar morto?
    O que é não ter vida?"
    Questões inquietantes.
    Gostei do poema.
    Uma boa semana.
    Beijos.

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