terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Aprisionada


Estou de pernas pro ar,
sou distinta do mundo,
estou saboreando sem paladar
o sabor de um proíbido fruto.
Estou vendo uma futura furtuna
perto, mas protegida por espinhos,
e vejo este buraco que me afunda
num deserto ansioso por vizinhos.

Deserto que me suga,
que me seca a vida
e sem hipótese de fuga
obrigo-me a ser rendida
onde só o perigo é presente,
onde estabilidade é passado
e o medo futuro vejo de frente,
enquanto a furtuna me passa ao lado.

Enfim só, presa numa cela
com dois ratos para conversar
e sem nenhuma vela
para a conversa iluminar.
Sento-me no chão
afago um dos bichos
e vejo que a solidão
não é sinónimo de nicho.
Há lodo em toda a parte,
e sinto-o nas minhas calças
mas sei que me vou acostumar
embora saiba que não eram falsas
dessas achinezadas que todos andam a comprar.

Ratinho que farejas-me
deves estar faminto,
devo cheirar ainda ao almoço
que foi pão e vinho tinto.
Perco a noção do tempo
perco o olfacto, que odiou este odor,
e aqui estranho não ouvir o vento,
só ouço o rato, este estupor.

Esta prisão deve ser perpétua,
onde a porta permanece trancada
até não haver vida nesta cela que é tua
e espero amanhã ainda ficar acordada
e achar no lodo uma porta secreta,
um arame, ou até uma chave mestra,
e a fechadura fosse vencida,
e eu novamente uma mulher com vida.

Mas os fins alegres
na realidade são para a quadrilha
e a desilusão sugere
quando caio nesta armadilha.

1 comentário:

  1. Adorei a armadilha final!
    Sinto muito bem o poema!
    Parabéns

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